Nada em “Foi Apenas um Acidente” soa pequeno, passageiro ou casual. O filme carrega um peso que vai muito além da própria narrativa, e talvez por isso funcione com tanta força: a sensação constante de que cena existe por necessidade, não por conveniência. O fato de sua produção ter acontecido, praticamente por baixo dos panos — em um contexto de vigilância, censura e risco real — não é apenas um dado externo curioso, mas algo que atravessa a obra e amplifica o impacto daquilo que está sendo contado.
Na sinopse, acompanhamos personagens comuns lidando com as consequências de um evento aparentemente banal, mas que se desdobra em tensões morais, políticas e existenciais. O acidente em si é só o gatilho; o que interessa ao diretor Jafar Panahi é o efeito dominó que ele provoca, expondo fraturas profundas em relações, escolhas e destinos.
Curiosamente, o filme dialoga de maneira quase involuntária com O Agente Secreto, surgindo como um contemporâneo espiritual. Os paralelos são impressionantes, indo de temas de opressão e paranoia até detalhes quase irônicos — sim, há até uma perna que assume um papel caricato, como se o cinema estivesse piscando para quem presta atenção.
O roteiro, no entanto, não é imune a tropeços. Alguns diálogos são cirúrgicos, carregados de tensão e subtexto, elevando o desconforto a níveis sufocantes. Outros, porém, se estendem além do necessário, diluindo a urgência que o próprio filme constrói com tanto cuidado. Em certos momentos, a sensação é de que a narrativa pisa no freio quando deveria acelerar, quebrando um pouco do ritmo emocional que vinha sendo tão bem estabelecido.
Há também decisões narrativas questionáveis no destino de alguns personagens, especialmente no arco de Hamid, interpretado por Mohamad Ali Elyasmehr, e de Goli, vivida por Hadis Pakbaten. Suas resoluções soam incoerentes diante do que o filme vinha sugerindo até então, como se a história recuasse justamente quando poderia ser mais incisiva. Não chega a comprometer o todo, mas deixa uma estranha sensação de oportunidade perdida.
Ainda assim, “Foi Apenas um Acidente” se impõe com força. A mensagem que Panahi transmite é direta, cruel e impossível de ignorar — um verdadeiro soco no estômago que ganha potência máxima em uma cena final arrebatadora, daquelas que silenciam qualquer distração e ficam ecoando bem depois dos créditos. Imperfeito, tenso e necessário, o filme prova que, às vezes, o cinema mais poderoso nasce justamente onde ele não deveria existir.















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