Já fazem alguns anos que as produções da Marvel Studios parecem operar no piloto automático, entregando obras genéricas, pouco inspiradas e presas a uma fórmula já bastante desgastada — ainda que, vez ou outra, surjam exceções que tentam escapar desse padrão. Wonder Man — ou Magnum, como foi batizada no Brasil — surge justamente como uma dessas raras e boas surpresas, e o faz de maneira imediata.
A série foge não apenas do modelo engessado da própria Marvel, mas também das convenções do gênero de super-heróis. Embora ainda acompanhemos um protagonista dotado de grandes poderes e algumas cenas de ação mais tradicionais, Magnum está muito menos interessada em salvar o mundo do que em observar seus personagens. No centro da narrativa, temos uma história essencialmente interpessoal sobre Simon Williams, um ator tentando alcançar reconhecimento e grandeza em Hollywood, lidando com frustrações, expectativas e inseguranças.
Nesse processo, a série trata com bastante sensibilidade temas como ansiedade, identidade e a constante necessidade de esconder quem se é para se adequar aos padrões impostos pela sociedade. E, querendo ou não, essa abordagem também funciona como uma discreta pavimentação para o terreno que conhecemos no universo dos X-Men e dos mutantes, onde a diferença é vista como ameaça.
Yahya Abdul-Mateen II se mostra uma escolha precisa para viver Simon Williams. Sua atuação equilibra bem as nuances de um protagonista caricato, vaidoso e egocêntrico, mas que também luta para se aceitar e para ser aceito. O ator consegue algo raro: faz com que o espectador simpatize com Simon, mas também se irrite com ele quando seu ego fala mais alto — o que humaniza ainda mais o personagem.
É justamente nesse ponto que surge uma das grandes surpresas da série: o retorno de Ben Kingsley como Trevor Slattery, o falso Mandarim apresentado em Homem de Ferro 3. Após uma recepção bastante controversa em 2013, o personagem reaparece aqui em sua melhor versão. Já visto rapidamente em Shang-Chi — que, curiosamente, tem o mesmo diretor da série —, Trevor ganha em Magnum uma função narrativa muito mais eficaz, tornando-se o tempero agridoce da trama, especialmente quando Simon começa a testar a paciência do público. Poucas vezes a Marvel conseguiu ressignificar tão bem um personagem, a ponto de transformá-lo, inesperadamente, em um dos melhores de toda a sua galeria recente.
No fim das contas, Wonder Man (Magnum) se firma como uma aposta bem-sucedida. É uma série que confia em seu roteiro, se sustenta sozinha e não depende de conexões forçadas, fan service excessivo ou cenas pós-créditos prometendo futuros que talvez nunca cheguem. Mesmo com um desfecho que soa um pouco fora do tom estabelecido, duas coisas ficam claras: a primeira é que o próximo filme do Homem-Aranha, estrelado por Tom Holland, está em boas mãos, já que Destin Daniel Cretton — diretor dos dois primeiros episódios e criador da série — será o responsável pelo longa. A segunda é que, em meio a tantos tropeços, a Marvel Studios ainda é capaz de entregar um entretenimento sólido, autoral e, acima de tudo, interessante.
NOTA: 4/5














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