Sam Raimi nunca foi um diretor interessado no óbvio, e Socorro! deixa isso claro logo nos primeiros minutos. O problema é que o roteiro parece muito confortável justamente nesse lugar comum. A história não traz nada de realmente original e, em alguns momentos, flerta perigosamente com o déjà-vu: há ecos quase replicados do primeiro Madagascar e um paralelo estrutural evidente com Triângulo da Tristeza, especialmente na forma como trabalha a dinâmica de poder e a inversão de papéis. Nada disso chega a ser disfarçado — e talvez esta nem seja a intenção.
Afinal, Raimi faz o aqui o que sabe fazer melhor: transforma uma premissa pacata em uma aventura inesperada. O filme é um verdadeiro turbilhão de gêneros, um Frankenstein cinematográfico que mistura trash cômico, megalomania, romance e terror, tudo ao mesmo tempo, sem que um gênero atropele o outro. Existe um controle impressionante do tom, algo que poucos diretores conseguem sustentar sem que o filme desmorone em excesso ou vire paródia involuntária.
Por trás do espetáculo visual e do exagero calculado, Socorro! guarda uma crítica curiosamente elegante sobre empatia e auto-cuidado. A inversão de valores proposta pelo filme levanta uma pergunta incômoda: se você estivesse no lugar do outro, seria realmente melhor ou apenas acabaria se tornando exatamente a mesma coisa? Raimi provoca esse desconforto sem discursos didáticos, deixando que a própria mise-en-scène carregue o peso da reflexão.
Não é a primeira vez que a direção de Sam Raimi se sobressai a um roteiro frágil — alô, Doutor Estranho no Multiverso da Loucura. Aqui, mais uma vez, o impacto visual é bárbaro. Mesmo que o miolo do longa quebre um pouco do transe, há um incômodo constante na tela, um show grotesco que faz o espectador virar o rosto diversas vezes, e esse tipo de tensão estética é uma assinatura que poucos diretores conseguem impor com tanta personalidade.
No elenco, Rachel McAdams é um espetáculo à parte. É quase impossível acreditar que Linda, essa excêntrica desassociada vivendo algo próximo de um Largados & Pelados existencial, seja interpretada pela mesma atriz que eternizou Regina George em Meninas Malvadas. Já Dylan O’Brien entrega uma boa atuação, mas sem grande destaque — sua performance parece funcionar muito mais como reflexo da mão firme de Raimi do que como um momento realmente autoral do ator.
No fim, Socorro! talvez não seja memorável pelo que conta, mas certamente é pelo modo como conta. Um filme que prova, mais uma vez, que quando Sam Raimi está atrás da câmera, até o trivial pode virar um espetáculo desconcertante — e deliciosamente estranho.















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