[CRÍTICA] Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa

Já faz um bom tempo desde que filmes de super-heróis e adaptações de quadrinhos se tornaram saturados no cinema, com alguns aqui ou ali se sobressaindo em suas peculiaridades – exemplo de Pantera Negra e Coringa. Aves de Rapina, porém, embora repita certas fórmulas dentro do gênero, trabalha para não ser apenas mais um neste mar de filmes de heróis que temos hoje, um feito que consegue concluir, afinal, mesmo não sendo uma reinvenção desde formato, ainda sim se destaca dos demais.

Como o próprio subtítulo do filme diz, este é um filme que busca a emancipação da Arlequina, um protagonismo que a vilã de Gotham City procura agora que não está mais com o Coringa. É interessante destacar que, mesmo tendo ficado conhecida por muito tempo como a “namorada do Coringa”, a personagem já conquistou sua própria personalidade há um bom tempo, e o trabalho que a Warner e a DC fazem para mostrar isso é sempre fabuloso – seja aqui, em Aves de Rapina, ou até mesmo em sua própria série animada (que por sinal apresenta a mesma proposta de emancipação), Arlequina já é dona de si mesma.

A trama escrita por Christina Hodson (Bumblebee) é simples, ela caminha por um caminho seguro e não arrisca em situações mais complexas, uma escolha sem inovações, mas que em nada prejudica a qualidade da história – pelo contrário, apenas é cuidadosa para não se atrapalhar dentro de si mesma (semelhante ao que aconteceu com Esquadrão Suicidada). O diferencial fica por conta do estilo de narrativa adotado pela diretora Cathy Yan, onde Harley se torna locutora da trama e eventualmente quebra a quarta parede. Este pequeno fator eleva a simples premissa e nos joga em uma Gotham colorida nos contraste de azul e rosa sempre presentes, mas ainda sim sinistra e sombria. Estamos dentro na cabeça louca e bitolada de Arlequina, um ambiente imprevisível e absurdamente lunático.

O longa é um aglomerado da base de personagens que conhecemos de Gotham, vilões paranoicos, reis do submundo, heróis corrompidos, busca por vingança, etc. E funcionando com um elo que conecta todos está Arlequina, a personificação pura do anti-heroísmo, uma mente perturbada que vive apenas para si e se transforma numa ótima protagonista. E este é um mérito tanto de Cathy Yan, que deu voz à personagem, quanto de Margot Robbie, que mais uma vez se consagra no papel em uma atuação belíssima.

Mas mesmo sendo a protagonista de Aves de Rapina (fato que sempre esteve na cara), Harley não ofusca suas companheiras de cena, cada uma delas conquista seu espaço em tela e cada atriz consagra sua personagem neste universo.  Rosie Perez fascina como a policial clássica que é Renee Montoya, assim como Mary Elizabeth Winstead e Jurnee Smolett-Bell surpreendem como heroínas poderosas que são Caçadora e Canário Negro (destaque para Winstead, nossa eterna Ramona Flowers, que arranca risos com facilidade em sua atuação pacata). Talvez apenas Cassandra Cain, interpretada por Ella Jay Basco, não se sobressai dentre as demais pelo simples fato de não estar à altura de suas parceiras, sendo facilmente ignorável. Cada uma delas, incluindo Arlequina, protagoniza cenas de ação espetaculares e muito bem coreografadas, sempre fazendo um bom uso dos slow motions – é um verdadeiro trunfo do filme.

O grande destaque, além de Margot Robbie, vem com Ewan McGregor numa personificação incrível como Roman Sionis, o Máscara Negra. O ator entrega uma atuação impecável no papel de um vilão alienado e sanguinário, uma pena, porém, acabar como uma mera versão barata do Coringa ante ao contexto geral do longa.

Em meio à uma tracklist memorável, Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa carrega uma feminilidade incrível presente em cada cena, um encanto pouco visto numa adaptação de quadrinhos recheado de uma representatividade mais que merecida, e é este o fato que o torna diferente de qualquer filme de grupo de personagens de quadrinhos, mesmo seguindo fórmulas parecidas. Em suma, Aves de Rapina é engraçado e colorido, mas não é como Marvel, é violento, sangrento e insano, é DC na melhor forma que conhecemos. 

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