Em um mundo saturado pela melancolia apática e pela ansiedade urbana, A Vida de Chuck chega como um abraço inesperado — desses que aquecem por dentro e lembram a gente de algo tão simples e ao mesmo tempo tão esquecido: estar vivo é uma arte. Mike Flanagan, adaptando Stephen King, nos convida a testemunhar a jornada de um homem comum, Charles “Chuck” Krantz, como se sua existência fosse uma obra-prima escondida em pequenos detalhes.
O filme inverte a lógica do tempo: começa pelo fim e caminha de volta à infância. Entre esses atos, nos presenteia com lembranças, encontros e até mesmo com Mark Hamill tentando — e, surpreendentemente, conseguindo — nos convencer de que matemática pode ser divertida. A estrutura, que poderia soar apenas como um truque narrativo, se revela um mosaico delicado, em que cada peça serve para celebrar a beleza das coisas miúdas, aquelas que se perdem no concreto dos dias.
Porque é isso: a vida é curta demais para se reprimir em um casulo de concreto. A Vida de Chuck nos lembra que dançar em meio ao caos, rir sem motivo aparente ou simplesmente olhar para o céu também é resistência. E a sétima arte, quando encontra esse equilíbrio, prova ser mágica. Curioso como um simples filme consegue, por algumas horas, nos salvar. É um sopro fresco, um suspiro de satisfação que se infiltra na rotina e nos devolve uma centelha de felicidade singela.
Parte dessa força vem das atuações: Chiwetel Ejiofor carrega nos olhos uma doçura firme, como quem traduz em silêncio tudo o que não pode ser dito, enquanto Benjamin Pajak, no papel do jovem Chuck, entrega uma pureza rara, sem afetação, que faz o espectador acreditar no milagre de cada pequeno instante. É também por isso que essa se torna, talvez, a adaptação mais profunda de uma obra de Stephen King — não pelo terror ou pelo suspense, mas por abrir espaço para um mergulho humano, íntimo, que reconhece a grandiosidade escondida naquilo que parecia banal.
No fim, o que resta é gratidão. Repito o que foi dito no néon do primeiro ato do longa: Obrigado, Chuck! — obrigado por lembrar que eu, você, todos nós, contemos multidões.
NOTA: 5/5